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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O Albergue de Orisson (Parte 2)

Aprendi, ainda em Curitiba, que a primeira coisa que deve-se fazer quando chega em um albergue é demarcar seu território. Ou seja, colocar seu saco de dormir e suas coisas na sua cama. Foi o que eu fiz. Então peguei minhas coisas para tomar banho, pois a coisa estava ficando feia...  Eram dois banheiros, um para as mulheres e outro para os homens, com uma ducha em cada um. Entrei embaixo do chuveiro, coloquei a moedinha e torci para dar tempo. Deu tempo!

O albergue no dia seguinte pela manhã, tempo chuvoso.
Em seguida, lavei a roupa na pia do banheiro, como indicado, com o sabonete que eu tinha mesmo. Torci bem e coloquei na secadora. Enquanto isso arrumei minhas coisas para dormir, fiz algumas anotações (no começo a gente anota...) e tirei algumas fotos do lado de fora do albergue. Quando tirei as roupas da secadora, percebi que estavam bastante úmidas. Pensei em pendurar na janela do meu quarto, mas então chegou um senhor alemão e indicou, apontando o dedo, para pendurar na calefação. Fez um gesto querendo dizer que o pessoal do albergue fica P. da cara e deu risada. Mostrou que ele já tinha pendurado algumas peças. Claro que segui a dica, pois não queria ficar com meias molhadas na mochila.

Como tinha tempo até o jantar, que seria às 19 horas, desci para o restaurante para passar tempo. Pedi uma taça de vinho e um sanduíche de queijo de ovelha, para experimentar. Enquanto me deliciava com o queijo, anotava mais algumas coisas e observava o ambiente. Numa mesa do outro lado do restaurante estavam uma senhora e uma mulher um pouco mais nova, as mesmas que passaram por mim pouco antes do granizo. Ficamos ali até o jantar, quando vieram ou outros peregrinos. Primeiro jantar no Caminho, gostei muito. Comida farta e muito vinho, muita conversa e muita mímica, foi muito divertido.

Depois do jantar, cansados e em um lugar isolado, não restava muita opção senão dormir. Não foi muito fácil, mas uma hora o sono veio. Lá pelo meio da madrugada, aquela senhora simpática, esposa do alemão que  me falou para usar a calefação, teve um pesadelo. Acordou dando um baita grito! Eu, que estava na parte de cima do beliche, grudei as unhas no teto! Lá se foram mais 30 minutos pelo menos para dormir novamente.


O tempo estava feio pela manhã, 
e não parecia que iria melhorar tão cedo.
Por volta das 6 horas, todo mundo acordando, e eu querendo dormir mais, mas não podia. Levantei, fui arrumar minhas coisas, muito devagar e com calma. Quando vi eram mais de 7 horas, a hora do café! Soquei tudo na mochila e desci correndo. O pessoal já estava na metade e não tinha sobrado muita coisa, mas ainda assim consegui comer bem. Não como deveria, mas eu ainda era inexperiente no Caminho e achei que era o suficiente.


A chuva fina parava e voltava. O frio e o vento davam vontade de não sair.




sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Albergue de Orisson (Parte 1)


Chegando no albergue de Orisson.
Nem acreditava que estava chegando no primeiro albergue do meu caminho. Estava cansado, ansioso e com fome. Estava também um pouco inseguro pois nunca tinha dormido em um albergue, estava sozinho, teria que falar com peregrinos de outras partes do mundo e não sabia como seria esta experiência. Além disso, a subida tinha sido dura, peguei muito sol, chuva, granizo, chuva, sol de novo, um pouco de barro também. Sem falar que já acumulava muitas horas sem dormir direito.

Entrei no restaurante, localizei o proprietário e fui falando, em francês, que tinha feito uma reserva no meu nome. Ele perguntou o sobrenome, falei qual era e ele começou a procurar, procurar... perguntou de novo, pediu para soletrar, e nada de achar meu nome. Ele já aparentava um certo nervosismo, e eu também, pois comecei a achar que estava falando algo errado. Falei que tinha reservado por e-mail e que confirmei a reserva "lá embaixo", em SJPP. Mostrei a cópia do e-mail, ele olhou, procurou no caderno dele, e nada de achar. Pediu para ver meu passaporte e soltou um "ah! você tem dois sobrenomes! Está aqui tua reserva. Eu já estava achando que eu tinha feito besteira!". 
O bar/recepção do albergue
Ufa! Fez então o meu registro, colocou o carimbo do albergue na minha credencial (o primeiro carimbo em albergue a gente nunca esquece!) e me levou até a parte de cima do restaurante, onde ficam os quartos. Indicou um beliche e disse para eu ficar na parte de cima, explicando que no Caminho é o costume: mais jovens na parte de cima para que os mais velhos e os que estiverem com algum problema possam ficar na parte de baixo. Corretíssimo! 
Mostrou o banheiro, falou mais algumas coisas e mandou o encarregado me dar a ficha do banheiro (?). Ao receber a ficha, o encarregado me explicou que devia coloca-la na "caixinha" em cima da torneira do chuveiro. A partir deste momento teria 5 minutos de água. E, detalhe, era daquelas torneiras que você aperta e sai água por alguns segundos, então você tem que apertar de novo. Mas compreendi que se não fizessem assim, um peregrino mais demorado poderia atrapalhar (e muito) os outros. 
O deck em frente ao albergue.
Perguntei sobre lavar a roupa e ele disse que poderia lavar à mão no banheiro e secar na máquina, já que o tempo estava chuvoso. Como não sabia se teria uma oportunidade de lavar no próximo albergue, comprei uma ficha da secadora. E já estava com alguma roupa suja acumulada, como o fleece que lavei e sequei de qualquer jeito no banheiro do café, na estação de Bayonne.
Reconhecido o lugar e recebidas as instruções, fui então me ajeitar e fazer a minha "obrigação" do dia.
A linda vista do deck do albergue de Orisson.

domingo, 11 de outubro de 2015

Primeira etapa: Saint-Jean-Pied-de-Port à Orisson (7,5km)

Primeira subida ao sair de SJPP.
Como comentei no post anterior, saí de Saint-Jean-Pied-de-Port junto com dois alemães. Na saída da cidade encontramos uma pequena mercearia onde eu comprei uma garrafa de água mineral, um chocolate - bom para dar energia, uma maçã e umas barrinhas de cereal. Todo peregrino iniciante tem mania de acreditar em conselhos de quem nunca esteve no Caminho ou esteve a passeio. Ou ainda acha que sabe das coisas e não ouve os mais experientes. Frases como "cada um é de um jeito", "eu me conheço", "conheço meus limites" ou ainda "eu sei o que fazer" são comuns entre os novatos. E não sei o motivo, principalmente entre os brasileiros (sempre sabem de tudo).

A paisagem é linda e a subida, praticamente constante.
Continuamos e logo que saímos da cidade já enfrentamos a primeira subida forte. Porém ainda era tranquilo. Aos poucos, os dois começaram a falar somente em alemão por ser mais confortável para eles. Além disso, caminhavam bem rápido. Tentei acompanha-los nos primeiros quilômetros, mas comecei a lembrar de um conselho que ouvi muito: "faça o teu rítmo, não tente ir mais rápido do que pode. Mesmo que isso signifique "perder" uma companhia, é melhor do que ter que abandonar o Caminho por ter alguma lesão. Se estiver andando em grupo, combine o destino para se encontrarem depois, mas não tente ir além da tua capacidade". Com isso em mente, avisei os alemães e comecei a caminhar mais devagar. Além deste conselho, um outro também ecoava na minha cabeça: "não tenha pressa, desfrute o caminho. Não é uma corrida. Aprecie a paisagem, converse com outros peregrinos, ouça suas histórias, aproveite a natureza". E foi o que comecei a fazer. Ainda bem que estes conselhos eu segui já no começo, pois a etapa dos Pirineus é uma das mais lindas. 

A região produz queijo de ovelha. Podemos vê-las por toda parte.


Este é o albergue de Hunto.
Eu acho que já era cerca de onze horas, e eu percebia que a subida nunca acabava. Olhava para trás e via as cidadezinhas pequenas, bem lá embaixo. O tempo estava incrível, o céu azul deixava tudo mais bonito e ajudava a dar um pouco mais de ânimo para continuar. Deposi de não sei quanto tempo caminhando (lembre-se, eu não tinha mais relógio. E não levei celular), cheguei ao albergue de Hunto. Havia um bar, mas parecia fechado. Resolvi continuar em frente, pois sabia que Hunto ficava a cerca de 5km de SJPP, e Orisson a uns 3km dali. 
No início da trilha, um pastor passando com suas ovelhas.
Uns 300m depois de Hunto o Caminho segue por uma trilha por aproximadamente 900m. Isso poupa o peregrino de ir pelo asfalto e andar 500m a mais. Porém, tudo tem um preço: a subida é forte. Para ter uma ideia, saí de SJPP, a cerca de 160m de altitude. Até Hunto, 5km depois, cheguei a mais ou menos 400m. De hunto até o fim da trilha, sobe mais 200m em 1.2km.

Aqui é possível ver que o tempo estava mudando...
Bem, começando a trilha, olhei para trás para ver a paisagem e percebi que o tempo estava mudando. Nuvens muito escuras estavam se aproximando. Realmente o que eu tinha lido era verdade, o tempo muda muito nos Pirineus, e muito rápido. Caminhando alguns metros, cheguei ao primeiro "cotovelo", a primeira curva fechada, bem no começo da subida mais forte. Resolvi parar ali para descansar, apreciar um pouco a vista e comer algo. Comi a maçã, tomei um pouco de água e, percebendo que o vento estava mais forte e as nuvens mais próximas, decidi pegar a capa de chuva. Foi uma sorte, pois mal comecei a vesti-la começou uma chuva, seguida de granizo, pequenos, mas ainda assim, granizo. Enquanto eu comia, passaram duas mulheres, aparentemente mãe e filha. Cumprimentaram e pararam um pouco para cima. Depois continuaram, pouco antes de eu fazer o mesmo.

Pouco depois da chuva parar, já perto de Orisson.


Chegando no albergue de Orisson.
Já em cima, saindo da trilha, andei mais 100m e cheguei em um mirante onde tinha uma mesa com indicações para identificar o que pode-se ver lá de cima. Parei mais um pouquinho ali. Ao continuar, já sem chuva, o sol voltou e o vapor erguia-se do asfalto. Neste ponto passou por mim um casal francês. E estavam animados, ele cantando alto. Se ofereceu para fazer uma foto minha quando viu que eu estava com a máquina na mão registrando a paisagem. Falei que eu estava cansado, que parecia que não chegaria nunca em Orisson e ele disse que estávamos bem perto, que era logo depois da curva. Falamos um pouco do tempo, mostrei o gelo em cima das montanhas que podíamos ver e ele me acalmou dizendo para não me preocupar, que não era mais época para neve, que devia ser o granizo que acabara de cair. Continuaram então num passo mais rápido e eu fui devagar atrás, tirando fotos, curtindo o Caminho. Bom, estava muito cansado também, não conseguiria ir rápido mesmo.
Mais alguns metros e já consegui avistar o albergue. Dei graças à Deus pois para chegar ali foram dois dias sem descansar direito, dormindo  mal e pouco.



A vista em Orisson é linda, vale a pena parar para admirar.




O albergue e restaurante de Orisson, bem na passagem dos peregrinos.